O confronto com a Venezuela expõe como a hegemonia do dólar e o controle sobre o petróleo seguem no centro da política externa dos Estados Unidos
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Desde então, qualquer país que quisesse comprar petróleo precisava, antes, obter dólares. Isso permitiu aos EUA financiar déficits colossais, sustentar um orçamento militar gigantesco e imprimir moeda em escala inédita, enquanto o resto do mundo precisava produzir para obter aquilo que Washington podia criar do nada. O petrodólar, mais do que porta-aviões ou bases militares, tornou-se o verdadeiro pilar da hegemonia americana.
É justamente aí que a Venezuela entra em cena. O país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta — cerca de 303 bilhões de barris, algo em torno de 20% de todo o petróleo mundial. Mais importante do que o volume, porém, foi a decisão política tomada a partir de 2018: Caracas anunciou que deixaria de negociar seu petróleo em dólares. Yuan chinês, euro, rublo — qualquer moeda, menos a americana. Paralelamente, buscou ingressar no BRICS, construiu canais de pagamento fora do sistema SWIFT e estreitou laços com China, Rússia e Irã, os principais vetores do processo global de desdolarização.
Para um sistema financeiro dependente do petrodólar, esse movimento é existencialmente ameaçador. Não por acaso, a história recente revela um padrão perturbador. Em 2000, Saddam Hussein anunciou que o Iraque venderia petróleo em euros. Três anos depois, o país foi invadido sob o pretexto de armas de destruição em massa que nunca existiram. O petróleo iraquiano voltou rapidamente a ser cotado em dólares. Em 2009, Muammar Gaddafi propôs o dinar de ouro africano para o comércio de petróleo. Em 2011, a OTAN destruiu a Líbia, e o líder líbio foi brutalmente assassinado. O projeto morreu com ele.
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Agora, Maduro. Com reservas muito maiores do que as de Saddam e Gaddafi somadas, vendendo petróleo em yuan e defendendo abertamente a superação do dólar. Não se trata de coincidência, mas de método. Desafiar o petrodólar tem sido, historicamente, um atalho para a mudança forçada de regime.
Declarações recentes de autoridades americanas tornam isso ainda mais explícito. Quando se afirma que o petróleo venezuelano “pertence” aos Estados Unidos porque empresas americanas o exploraram no passado, o discurso abandona qualquer verniz democrático e assume a lógica colonial e imperialista em estado puro. Pela mesma lógica, toda nacionalização de recursos naturais ao longo da história seria um “roubo”, e a soberania dos povos não passaria de um detalhe inconveniente.
O problema para Washington é que o mundo de 1974 já não existe. Rússia, Irã e China negociam energia fora do dólar. A Arábia Saudita discute abertamente aceitar yuan. O CIPS chinês cresce como alternativa ao SWIFT, e o BRICS avança na construção de sistemas próprios de liquidação financeira. Nesse contexto, a entrada da Venezuela no bloco, com seu petróleo abundante, teria um efeito catalisador.
A tentativa de impor pela força a sobrevivência do petrodólar pode, paradoxalmente, acelerar sua erosão. A mensagem enviada ao Sul Global é clara: negociar fora do dólar tem custo militar. Mas, para muitos países, essa constatação apenas reforça a urgência de criar alternativas. A história mostra que impérios raramente caem por um único golpe; eles se desgastam tentando manter, à força, uma ordem que já começou a ruir.
A Venezuela, portanto, não é o centro do mundo, mas um espelho. O que está em jogo não é Maduro, nem a retórica moral que o cerca. É a disputa entre um sistema financeiro construído há 50 anos e um mundo que começa, lentamente, a escapar de seu controle.
De Oliveiros Marques
Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas