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9 de janeiro de 2011

Belo Monte: ‘Essa barragem vai acabar com a gente, vai acabar com tudo’,afirma líder indígena.

Treze famílias de índios maias que vivem na margem da Volta Grande do Xingu, no Pará, temem que a construção da hidrelétrica de Belo Monte reduza o nível da água a ponto de inviabilizar a navegação e a pesca, fonte de alimentação da população. O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) – órgão do governo federal que participou das pesquisas para Belo Monte –, Maurício Tolmasquim, afirmou que os indígenas não serão diretamente impactados.

“O projeto original previa área inundada de 1,2 mil quilômetros quadrados e a área atual é de 516 quilômetros quadrados. Mudou justamente para evitar impactos sobre as terras indígenas”, declarou. Segundo ele, os estudos mostram que a Volta Grande pode ter vazão reduzida, mas não vai secar nem perder a navegabilidade.

A reportagem é de Mariana Oliveira e publicado pelo G1, 25-03-2010.

Tolmasquim afirmou ainda que os índios foram ouvidos pelo governo durante o processo de audiências públicas com a população. “A grande maioria das comunidades indígenas é favorável [à hidrelétrica]. Tem um grupo de militantes locais contra, mas a massa da população local é favorável. Um grupo atua com a questão ideológica e pretende que [o local] fique intocável, mas não é necessariamente a visão de todos”, afirmou o presidente da EPE.

Os índios dizem, porém, que deveriam ter sido feitas audiências específicas para tratar dos interesses das tribos. Para o líder Leôncio Arara, da tribo maia, se a hidrelétrica for construída, o povo vai “cair em tristeza”. “Se vier a barragem, para mim significa uma crise. O Xingu vai ficar mais baixo, e a gente vai ser prejudicado. Estamos acostumados com essa floresta, essa riqueza. O que vai ser de nós?”, questiona. “Essa barragem vai acabar com a gente, vai acabar com tudo.”

Leôncio Arara disse que a população indígena está preparada para resistir à força. “Os parentes (outras tribos) falam em mobilização de 5 mil a 10 mil índios para acampar na barragem e daí vão dispostos a tudo para proteger nossa vida”, afirmou.

O índio Josinei Arara disse que a resistência ocorrerá porque eles precisam navegar no rio para garantir a alimentação da tribo. “A gente vai lutar fortemente contra isso. Estamos dispostos a tudo. Se ficarmos de braço cruzado vai ser pior.”

Josélia Arara, 27 anos e mãe de oito filhos, disse que as mulheres também vão ajudar. “Não somente os homens que estão dispostos a qualquer coisa. As mulheres vão ser prejudicadas e ajudarão para o que der e vier. Nós somos mais afetadas. E se as crianças ficarem doentes, como faremos se não tivermos navegabilidade para deixar a tribo?”

José Carlos Arara, teve um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no ano passado e guarda em um porta-retrato de sua casa a lembrança daquele dia. “Ele disse que jamais construiria algo que fosse prejudicar alguém e que não iria enfiar caminhão goela abaixo de ninguém, mas infelizmente não é o que parece”, afirmou.

Para José Carlos Arara, a tribo está em um “beco sem saída”. “Não tem nenhum documento que diga que seremos afetados, mas está claro que todos os meios de vida serão afetados. E não temos ideia de como será a situação com a qual iremos nos deparar. Para nós, significa uma perda em relação ao meio de vida da população indígena.”

Ribeirinhos

Em uma vila de ribeirinhos na margem do Xingu, a Ilha da Fazenda, território pertencente ao município de Senador José Porfírio, os moradores também dizem temer a seca na Volta Grande.

“Desde o início, eu não acho que vai ser bom porque vai ser uma morte. Um lado vai encher e o outro vai secar. Eu tenho a pesca como sobrevivência e não sei como vai ficar”, diz o pescador Miguel Carreiro de Souza, de 52 anos, que tem como função na vila transportar as crianças para a escola em outra vila maior.

Fátima Ribeiro, de 59 anos, tem filhos e netos na ilha. “Para a gente vai ser muito ruim. A gente vive do que planta e colhe e não sabe direito como vai ficar tudo. E as crianças, como vai ser?”, pergunta. Ela disse ainda temer que a “fúria” dos índios contra a hidrelétrica acabe prejudicando os ribeirinhos. “A gente se preocupa com violência, essas coisas. A gente só quer ficar aqui em paz.”

Fonte Portal Ecodebate: http://www.ecodebate.com.br/
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