"Os bons ideais aproximam as pessoas que olham o mundo não apenas para si, mas para todos"

22 de novembro de 2014

Frei Luís Flávio Cappio e a luta contra a transposição do Rio São Francisco. Artigo de Frei Gilvander Luiz Moreira

“Meu rio de São Francisco, nesta grande turvação, vim te dar um gole d’água e pedir sua bênção”. (Inspirado em Guimarães Rosa, refrão de música de frei Luiz)

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[EcoDebate] Um testemunho espiritual e profético na luta pela Sustentabilidade da Vida

1. Pra começo de conversa

A maior devastação ambiental da história do Brasil está em curso e cresce em progressão geométrica. Eis um sinal dos tempos e um sinal dos lugares que compõem o Brasil. Do pau-brasil a brasas, eis um futuro iminente do país-continente aclamado por tantos no passado como um paraíso terrestre, caso não consigamos frear a avalanche de devastação ambiental da nossa única casa comum: o Planeta Terra.

A Transposição de águas do Rio São Francisco é algo muito grave que está acontecendo no Brasil. O Governo do Presidente Lula se nega “com unhas e dentes” a um diálogo franco e transparente sobre o projeto. O poder midiático compactua com o Governo Federal e não abre espaço para que um debate autêntico seja feito. Muitos movimentos populares, sob a liderança da Comissão Pastoral da Terra – CPT – e da Articulação do Semi-Árido – ASA – continuam aguerridamente a luta contra a transposição, em defesa de uma autêntica revitalização da bacia são-franciscana e por um Projeto de Convivência com o Semi-Árido.

Em 2005, Dom Cappio fez um jejum (“greve de fome”) de 11 dias, entre 26 de setembro e 05 de outubro, em Cabrobó, PE, contra a Transposição do Rio São Francisco, em defesa da Revitalização da bacia são-franciscana e de um Projeto de Convivência com o Semi-Árido.

Dom Cappio afirmou publicamente que, se o acordo firmado, em confiança, com o Presidente Lula – de abrir um amplo e sério diálogo com a sociedade sobre o Projeto de Transposição – não fosse cumprido, ele voltaria ao jejum e oração, com mais determinação ainda. Infrutíferas e esgotadas foram todas as tentativas de diálogo durante dois anos. Dessa forma, Dom Cappio fez um segundo jejum, durante 24 dias, de 27 de novembro de 2007 a 20 de dezembro de 2007, na Capela de São Francisco, em Sobradinho, BA, ao pé da barragem de Sobradinho, o maior lago artificial do mundo que, na época, estava com menos de 14% da sua capacidade, o que revela que “o Velho Chico está na fila do SUS e não sabe se vai ter direito a uma UTI”, profetiza Dom Luiz.

“No mundo dos pequenos, o Evangelho se situa logo. Interpreta uma situação complexa com muita simplicidade. Inquieta e rouba o sono”, ensina Paulo Suess. De fato, testemunhando uma ótima notícia para os pobres, uma péssima notícia para os empresários do agro e hidronegócio, Dom Cappio com seus dois jejuns inquietou e roubou o sono de muita gente.




2. Frei Luiz, o Dom Cappio…

Dom Frei Luiz Flávio Cappio, carinhosamente chamado de frei Luiz, 61 anos, pessoa de eminente santidade pessoal e de incondicional amor aos deserdados do vale do São Francisco, ainda frade jovem, militou na Pastoral Operária em São Paulo. Nasceu no dia 04 de outubro de 1946, dia de São Francisco. Como este, revela, também, uma paixão sem igual pela causa são-franciscana e um amor extremado pelo povo da bacia são-franciscana e do Semi-Árido. Há 33 anos chegou à Diocese de Barra/Bahia, no Médio São Francisco, só com a roupa do corpo e sandálias. Fez um dos melhores cursos de teologia do Brasil, em Petrópolis. Foi aluno de Leonardo Boff e de tantos outros teólogos da Teologia da Libertação. Cursou economia também.

Para Dom Cappio, o rio São Francisco é “a mãe e o pai de todo o povo, de onde tiram o peixe para comer, a água para beber e molhar suas plantações – principalmente em suas ilhas e áreas de vazantes. Mesmo não sendo o maior rio brasileiro em volume d’água, talvez seja o mais importante do País, porque dá condição de vida à população. Sempre dizemos: rio São Francisco vivo, povo vivo; rio São Francisco doente e morto, população doente e morta”.

A atriz Letícia Sabatella, em visita a frei Luiz no dia 04/12/2007, ao contemplá-lo, exclamou: “Dom Cappio é alma amorosa e plena de compaixão humana, pastor de uma Igreja que mobiliza e não anestesia, que ajuda a conscientizar e formar cidadãos”.

Roberto Malvezzi, da Comissão Pastoral da Terra, pondera: “O gesto de Frei Luiz – sentar-se em uma cadeira, com seu hábito franciscano, tomando apenas água do São Francisco -, convulsionou o País como nenhum outro gesto. Ele não atentou contra a vida dos outros. Pôs em risco a sua própria. E apontou para problemas maiores que o Brasil terá que enfrentar agora e no futuro. Cada pessoa que tem filhos, ao pensar em que planeta eles viverão, em que país eles viverão, em que Nordeste eles viverão, como será a situação do São Francisco e de todo o sertão, entendeu o gesto dele”.

O sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira analisa: “Dom Cappio usou a linguagem religiosa para fazer uma denúncia política, criando uma situação constrangedora para a comunidade católica que só em parte se alinhou com ele. Foi um gesto extremo, sem dúvida, que só uma situação muito grave pode justificar. Para quem vê o projeto como uma obra faraônica que faz da água objeto de transações econômicas, desrespeitando os direitos dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, aquele foi um gesto da melhor tradição profética, que provoca mesmo divisões. Dividiu-se a “esquerda” entre quem fica com a concepção economicista de desenvolvimento, e quem insiste na partilha da riqueza como caminho para que todos tenham vida com dignidade. Dividiu-se a comunidade cristã entre quem aceita o lugar que lhe foi atribuído pela (pós) -modernidade e quem insiste na dimensão intrinsecamente política do Evangelho. É difícil aceitar essas divisões, mas, no caso, elas representam um avanço político para irmos além daquilo que o governo Lula pode oferecer.”

Só quem vive imerso na doação incondicional de Deus é capaz de gestos de tão extremada generosidade. Quem sabe que tem Deus sempre por perto, pode, destemido, enfrentar o inóspito poder dos que se julgam fortes!

Frei Luiz chegou aos sertões baianos do rio São Francisco e logo se identificou com o Rio. Encontrou lá o melhor modo de seguir São Francisco, seu pai e modelo no seguimento de Jesus. Passou a se sentir visceralmente integrado ao povo do Rio e ao rio do povo, em uma franciscana e espiritual ecologia. Vendo com olhar compassivo e penetrante, Dom Cappio foi observando a degradação ambiental e social do Rio e de seus afluentes: peixe escasso, vazantes menos produtivas, bancos de areia, navegação difícil, águas poluídas, rasas…

Como intelectual orgânico, frei Luiz começou a perguntar o porquê de tanta agressão. Descobriu que os principais problemas são o desmatamento, para as monoculturas e as carvoarias, que diminui os mananciais e provoca o assoreamento; a poluição urbana, industrial, minerária e agrícola; a irrigação que, além dos agrotóxicos, consome águas; as barragens e hidrelétricas que expulsam comunidades, impedem os ciclos naturais do Rio e comprometem 80% de suas vazões com a energia elétrica; a pobreza e o abandono da população, a que mais sofre com as conseqüências desses abusos…

Na apresentação do livro Uma vida pela vida, de Dom Itamar Vian (org.), frei Luiz pontua: “Falar do jejum e oração que aconteceram em Cabrobó e em Sobradinho é falar de um pastor que, à luz de Jesus Cristo, doa a vida por seu rebanho amado e que, à imitação de São Francisco, entrega o que tem de melhor aos pobres e aos que estão à margem, os preferidos de Deus”.

Dom Cappio, em Carta ao Presidente Lula, de 04/10/2007, afirmou: “O senhor não cumpriu a palavra. O senhor não honrou nosso compromisso. Enganou a mim e a toda a sociedade brasileira. Uma nação só se constrói com um povo que seja sério, a partir de seus dirigentes. A dignidade e a honradez são requisitos indispensáveis para a cidadania. Portanto retomo o meu jejum e oração… Acredito que as forças interessadas no projeto usarão de todos os meios para desmoralizar nossa luta e confundir a opinião pública. Mas quando Jesus se dispôs a doar a vida, não teve medo da cruz. Aceitou ser crucificado, pois este seria o preço a ser pago. A vida do Rio e do seu povo ou a morte de um cidadão brasileiro”.

Em alto e bom som, com a intrepidez dos profetas Elias, Amós, Oséias, Jeremias, do diácono Estevão, Dom Cappio ‘meteu o pé no barranco’ e bradou, através de palavras e pelo gesto de se dispor à doação da sua própria vida, que o Presidente Lula não cumpriu a palavra, não honrou compromissos assumidos e enganou o povo. Dom Cappio desmascarou o governo Lula. Revelou a grande farsa que se montou. Desmistificou um ‘ídolo’ do povo. Postura assim veicula uma espiritualidade libertadora e é imprescindível na construção da sustentabilidade da vida.

Em 25 de novembro de 2007, em carta endereçada aos padres da Diocese de Barra, frei Luiz pondera: “Os movimentos sociais têm feito o que podem. Em vão. Diante da sucessão de absurdos que vêm acontecendo em níveis institucional, econômico, político, social e ambiental, não posso me omitir. Novo grito tem que ser dado. Se o eco do primeiro ainda ressoa, agora será alimentado por novo gesto baseado na fé e no amor, principalmente ao povo de Deus, a quem doei minha vida… Sei que isso traz uma profunda experiência de insegurança diante do futuro. Peço que encarem com fé este profundo gesto de amor e doação. “A profecia não pode morrer”, ensinava Dom Hélder Câmara, embora saibamos que seu preço é muito caro”.

Na primeira carta ao Povo do Nordeste, em 30/09/2005, em jejum e oração, Dom Cappio afirmou: “Queridos irmãos e irmãs nordestinos do Ceará, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Pernambuco: há mais de 30 anos, buscando ser fiel a Jesus Cristo e a meu pai São Francisco, identifiquei minha vida sacerdotal com o Rio São Francisco e seu Povo. Neste momento, apenas procuro manter-me coerente com esta opção. Não quero morrer, mas quero a vida verdadeira para o Rio São Francisco e para o todo o Povo Sanfranciscano e do Nordeste! Não estivesse o Rio São Francisco à beira da morte e suas águas fossem a melhor solução para a sede de vocês, eu não me oporia e lutaria com vocês por isso”.

O testemunho de Dom Cappio tem uma história de coerência. Vem de longe. Ele é outro enviado de Deus, apaixonado por Jesus Cristo e por Francisco de Assis que, como ele, largou o conforto de uma família rica, despojou-se de tudo e abraçou a luta ao lado dos menores do sertão, no Médio São Francisco. Dom Cappio não queria morrer, mas entende que sua vida está intimamente ligada à vida do Rio, do seu Povo e de toda a biodiversidade. Que adianta continuar vivendo, se o nosso próximo – o Rio, o Povo e a biodiversidade – está morrendo?

Dom Cappio procurou se respaldar por estudos técnicos sérios e aprofundados. Sabe, como líder, que não pode deixar o povo ser enganado. Apóia o que, de fato, é melhor para os pobres. Toma o partido dos pobres.

Padre Paulo Suess, no artigo “Dom para o mundo, frei de todos: o gesto profético de Luiz Flávio Cappio” analisa: “O gesto profético de frei Cappio produziu uma polêmica crescente no interior da Igreja. Um setor apoiou a postura política do Frei, porém era contra o meio escolhido, a greve de fome. Outro setor era contra seus objetivos políticos, achando que a transferência do rio São Francisco é um projeto que traz mais benefícios do que prejuízos à população. Ainda outro setor, em torno dos movimentos sociais e das pastorais, era a favor dos objetivos e apoiava o meio da greve de fome, como um recurso último, legítimo e profético”.

Aí entrou em cena o setor institucional da Igreja, a CNBB, a Nunciatura e o Vaticano. Não se pronunciaram sobre a validade dos fins, mas chamaram a atenção do colega sobre o meio escolhido, a greve de fome. Esse meio, alegavam, é contra “o preceito divino de não extinguir a vida”. Exigiram do Frei: “imediatamente coloque fim a este gesto em obediência também à Santa Sé”, como diz a carta do prefeito da Congregação para os Bispos, cardeal Giovanni Battista Re, a Dom Cappio, datada no Vaticano, dia 04 de outubro de 2005, e publicada, indelicadamente, no site da CNBB.

O Núncio Apostólico, Dom Lorenzo Baldisseri, acionou, discretamente, seus dois braços: o (então) secretário-geral da CNBB, D. Odilo Scherer, e o cardeal Re. Ambos traduziram a ofensa contra “o preceito divino” como “suicídio”. Assumindo uma atitude que poderá terminar com a sua morte, D. Luiz Cappio estaria, como suicida potencial, infringindo “os princípios da moral cristã”.

Tendo conhecimento dessa postura da Santa Sé, Jacques Wagner, então Ministro das Relações Institucionais do Governo Lula, dirigiu-se, no mesmo dia 06 outubro de 2005, como o Núncio, com tranqüilidade para Cabrobó. Sabia que a negociação com frei Luiz Cappio lhe sairia barato. Não precisava levar mensagem assinada pelo Presidente Lula, nem prometer a interrupção do projeto que causou a greve de fome do Frei. O Governo Federal prometeu apenas “prolongar o debate”, dar continuidade às obras da revitalização, e abrir as portas do Palácio do Planalto para uma visita de Dom Luiz. Enquanto J. Wagner estava fazendo jogo de cena na capelinha de São Sebastião, o Núncio estava esperando na casa paroquial de Cabrobó, para um segundo round, se preciso fosse, de cunho disciplinar, munido com a carta de intimação do cardeal Re…

Doar a vida não é suicídio. Neste momento de perda de referenciais éticos no Brasil, das águas turvas do cenário político, a figura de Dom Luiz Flávio Cappio surge como uma rocha. Assumiu, na solidão de sua consciência, a decisão de dar a sua vida pela vida do povo e do Rio. Mas, a greve de fome não significaria predisposição ao suicídio, como algumas pessoas advertiram? Convêm alguns esclarecimentos a respeito. A greve de fome faz parte dos instrumentos de luta da não-violência. Ela tem como objetivo uma causa, que é possível realizar. Para o sucesso da greve de fome conta muito a opinião pública, o apoio popular e, como neste caso, a solidariedade eclesial. Com certeza, a percentagem dos que morrem em conseqüência de uma greve de fome é menor do que os mortos pela fome ou pela falta de água no polígono da seca nordestina. Nessa perspectiva, a greve de fome se aproxima da abdicação de um privilégio e de uma partilha exemplar de estruturas de morte. Quando, no dia do aniversário do Rio e do bispo, no dia 04 de outubro, participamos por duas horas da interrupção do trânsito da estrada que liga Petrolina a Cabrobó. A idéia, então, era exatamente chamar a atenção pública para a causa em jogo, de multiplicar o impacto, de ampliar a audiência da região para evitar a morte.

Na moral cristã existem causas que justificam a morte, sobretudo quando se trata de um bem maior. Quando São Francisco decidiu ir a Jerusalém para falar com o Sultão, a sua decisão foi considerada de alto risco para a sua vida. Existe algo como um risco profissional. Isso vale para cada profissão, seja carvoeiro ou bombeiro. No caso de um religioso está ligado à coerência com sua ética profissional. A greve de fome de Dom Cappio não tinha as características de um suicídio anunciado, mas de uma vacina zelosamente preparada. Como o veneno da cobra cria anticorpos contra a mordida de cobra, assim o veneno da fome, assumido pelo jejum de frei Luiz, criou anticorpos contra a fome do povo e contra a voracidade daqueles que lucram com a indústria da seca.

Padre José Comblin, grande expoente da Teologia da Libertação, no artigo “A propósito da greve de fome de Dom Luiz Cappio” , reflete: “Há valores mais importantes do que a vida, que não pode ser salva a qualquer preço, como se fosse o valor absoluto. O próprio Jesus mostrou isso na sua vida. Na véspera da sua paixão, ele podia muito bem ter fugido, seguindo os conselhos dos seus discípulos. Bastavam alguns poucos dias de marcha e ele estaria fora do alcance daqueles que o queriam matar. Ele teve que escolher: Fugir ou morrer. Os próprios evangelhos dizem que a tentação foi forte e a luta foi dura, mas ele resolveu ir ao encontro da morte. Sabia que iam matá-lo, e assim mesmo foi ao encontro da morte”.

Dom Oscar Romero sabia, tinha a certeza de que iam matá-lo. No entanto, era fácil evitar a morte. Bastava tomar o avião e afastar-se do país. Assim o suplicavam os padres, os agentes de pastoral e até as autoridades eclesiásticas. Era muito fácil. Morreu porque quis. Ficou em San Salvador, sem se esconder. Ele se ofereceu à bala do atirador. Por quê? Por causa do Evangelho.

E quantos outros na história? Claro que na mesma situação a grande maioria faz a outra opção e foge. Já foi assim nos primeiros séculos. A grande maioria fugiu, se escondeu e escapou. Outros quiseram ficar e oferecer-se à cruz…

Dom Oscar Romero achou que, na matança e na opressão do seu povo, o evangelho estava comprometido e que a fidelidade a Jesus exigia dele que tomasse a sua cruz. Tomou a sua cruz. Não ia ao encontro de um risco de morte. Era uma certeza. Assim como os primeiros cristãos que se negavam a oferecer incenso à imagem do imperador sabiam que isso era a morte.

As circunstâncias mudam. Hoje em dia em lugar nenhum se pede incenso para o presidente da república. No entanto, hoje em dia o grande ídolo é o capital. Baixar a cabeça diante dos grandes bancos mundiais é idolatria. Com certeza vão aparecer mártires da luta contra o deus dinheiro.

De qualquer maneira, não podemos colocar a vida como valor supremo e tudo subordinar à necessidade de salvar a vida. Podemos muito bem descobrir que em casos determinados a defesa dos direitos dos pobres justifica o sacrifício da vida. Quantos morreram porque desafiaram a polícia, os capangas do fazendeiro ou os pistoleiros contratados pelos poderosos?

O que pode nos estranhar é a modalidade. Fazer greve de fome é diferente de colocar-se na frente do atirador para levar um tiro. A forma exterior é diferente, mas isso não muda a natureza moral do ato.

A greve de fome é um meio de ação social relativamente novo, mas destinado a um grande futuro na sociedade urbana de comunicação. Os dominadores dizem que a decisão tomada por um Congresso representa as opções da maioria da população porque os deputados são os representantes da Nação. Porém, a experiência mostra que isso é pura ilusão. Os deputados não representam o povo, mas certas categorias de interesses. O que aconteceu na Europa mostrou muito bem a ilusão do sistema chamado de representatividade como se as eleições fossem realmente um sistema democrático. A experiência mostra que os pobres não têm representação, e que os eleitos não levam em consideração nenhuma as expectativas dos eleitores. Quem ganha as eleições é quem tem dinheiro, salvo poucas exceções. Então os pobres não têm voz.

Dizem que os conflitos devem resolver-se pelo diálogo e pelo debate. Ora, quem está presente nos debates? Intelectuais e representantes das classes dominantes. O povo está ausente de todos os diálogos e de todos os debates. Somente pode haver diálogo entre grupos de força igual. Ora os pobres não têm força nenhuma e os ricos têm todas as forças. Como pode haver um diálogo? Somente haverá diálogo quando os pobres tiverem uma força social suficiente e equivalente à força dos bancos, das multinacionais, das grandes empresas. Até lá o diálogo é engano.

Acontece que a greve de fome é um gesto destinado a despertar o povo. É quase a única maneira que um povo tem de mostrar a sua presença e de pressionar os poderosos. Todos os canais institucionais estão fechados. Para lembrar a sua existência aos poderosos os pobres precisam de sinais fortes. Sem esses sinais o medo é sempre mais forte…

A greve de fome é o último recurso quando não há mais recursos. A outra via é a violência como na Palestina e no Iraque. O bispo mostrou que tinha escolhido o caminho pacífico, o que merece admiração e gratidão. Haveria outro recurso? O Congresso? Os partidos? Os tribunais? Todas estas instituições escutam os clamores do povo? Para o povo somente existem caminhos fora das instituições e fora das leis. As leis não foram feitas para lhes facilitar a expressão.

Sobre o ponto de vista da moral católica, “não se considera que a greve de fome seja condenável de modo absoluto, ou seja, em qualquer condição e sob qualquer condição e sob qualquer premissa”.

A fidelidade ao Evangelho vale mais do que a vida e Deus quer essa fidelidade mais do que a vida. Assim o mostraram os mártires que provocaram a sua morte porque rejeitaram os gestos que podiam salvar-lhes a vida. Puderam escolher e escolheram a morte porque havia um valor superior que era a fidelidade ao Evangelho.

Quem faz a greve de fome não tira a sua vida, mas pressiona os poderes; cria um risco, mas esse risco existe em outras situações humanas.

Na sua segunda Carta ao Povo do Nordeste, em 29/11/2007, Dom Cappio abre os olhos dos pobres do Semi-Árido: “O governo não cumpriu o prometido, abortou o debate apenas iniciado, ganhou as eleições e colocou o Exército para começar as obras da transposição. Movimentos e entidades da sociedade organizada intensificaram as mobilizações e os protestos, mas o governo se fez de surdo. Diante disso, não me restou outra alternativa senão retomar o jejum e oração, como havia dito que faria se o acordo não fosse cumprido…”

A seca não é um problema que se resolve com grandes obras. Foram construídos 70 mil açudes no Semi-Árido, com capacidade para 36 bilhões de metros cúbicos de água. Faltam as adutoras e canais que levem essa água a quem precisa. Muitas dessas obras estão paradas, como a reforma agrária que não anda. Levar maiores ou menores porções do São Francisco vai tornar cara toda essa água existente e estabelecer a cobrança pela água bruta em todo o Nordeste. O povo, principalmente das cidades, é quem vai subsidiar os usos econômicos, como a irrigação de frutas nobres, criação de camarão e produção de aço, destinadas à exportação. Assim já acontece com a energia, que é mais barata para as empresas e bem mais cara para nós. Essa é a verdadeira finalidade da transposição, escondida de vocês. Os canais passariam longe dos sertões mais secos, em direção de onde já tem água.

Portanto, não estou contra o sagrado direito de vocês à água. Muito pelo contrário, estou colocando minha vida em risco para que esse direito não seja mais uma vez manipulado, chantageado e desrespeitado, como sempre foi. Luto por soluções verdadeiras para a vida plena do povo sertanejo – isso tem sido minha vida de 33 anos como padre e bispo do sertão. É, pois, um gesto de amor à vida, à justiça e à igualdade que nunca reinaram no Semi-Árido, seja aí, seja aqui no São Francisco, longe ou perto do rio…

O São Francisco precisa urgentemente de cuidados, não de mais um uso ganancioso que se soma aos muitos que lhe foram impostos e o estão destruindo. Como lhes disse da outra vez, fosse a transposição solução real para as dificuldades de água de vocês, eu estaria na linha de frente da luta de vocês por ela.

O que precisamos, não só no Nordeste, é construir uma nova mentalidade a respeito da água, combater o desperdício, valorizar cada gota disponível, para que ela não falte à reprodução da vida, não só a humana. Precisamos repensar o que estamos fazendo dos bens da terra, repensar os rumos do Brasil e do mundo. Ou estaremos condenados à destruição de nossa casa e à nossa própria extinção, contra o Projeto de Deus.”

Padre João Batista Libânio, em artigo no Jornal OPINIÃO, n. 966, reflete: “E quando no caminho dos poderosos surge um profeta disposto a dar a vida? A situação se complica. A voz serena, firme, não-violenta de quem abraça a causa, não por próprio interesse, mas por amor ao povo, soa diferente… Na Transposição do rio São Francisco, o governo esbarrou com enorme obstáculo, cuja força reside na fraqueza. Homem de fé, religioso, bispo bem próximo dos pobres e comprometido com eles. Que o grito profético de Dom Luiz Flávio Cappio sirva para mostrar à sociedade brasileira e ao governo que há pessoas capazes de jogar a vida por ideais elevados e que o povo brasileiro não se encontra totalmente anestesiado e adormecido diante de causas maiores”.

Padre José Januário, após visitar Dom Cappio em Cabrobó/PE, dia 04/10/2005, exclamou: “Encontrei ‘Francisco’ à margem do rio São Francisco, em Greve de Fome. Dom Luiz, vestido como frade, tinha a serenidade e o vigor de um profeta, em seus olhos contemplava-se plenamente a vida, seu sorriso trazia a força e a ternura do evangelho; em suas mãos, a marca da população ribeirinha e, em suas palavras, a liberdade e a clareza da missão que cumpria.”

3. A luta contra a Transposição do Velho Chico: luta pela sustentabilidade da vida. Dom Cappio não está sozinho na luta contra a Transposição que foi iniciada e avança com a militarização da região. Com ele estão mais de 800 organizações populares que integram a ASA – Articulação do Semi-Árido -, estão muitos movimentos sociais como a Via Campesina que, em carta a Dom Cappio, disse: “Receba nossa solidariedade fraterna. Vamos transformá-la em luta prática e em um chamado a todo o povo, por todo o território nacional, mostrando à sociedade e ao governo federal que sua luta é nossa luta: a busca por um país justo, soberano e ambientalmente sustentável. Tenha a certeza de que estamos ao seu lado, atuando em todo o Brasil, em defesa da sua vida, que hoje se integra totalmente com a própria vida e destino do rio São Francisco. Seu gesto significa um ato de amor pelo povo e pelo nosso país”.

Também estão com frei Luiz a CNBB , a OAB , Ministérios Públicos estaduais e federais da bacia são-franciscana, a SBPC , que em um congresso, em Recife,PE, em agosto de 2004, com os melhores hidrólogos do mundo demonstrou que a Transposição será uma tragédia social e ambiental. Grandes “técnicos” entendidos no assunto assessoram a luta contra a transposição, em defesa do Rio São Francisco, do seu Povo e de toda a biodiversidade já bastante comprometida.

Segundo o professor Dr. João Abner Guimarães Jr. há um projeto de Transposição fantasioso, vendido à opinião pública por um forte marketing oficial e pela mídia. E há outro projeto real de transposição que está sendo sistematicamente ocultado do povo, pois é perigoso, injusto, insano e faraônico: 87% das águas da Transposição serão para atividades econômicas altamente consumidoras de água, como a fruticultura irrigada, a criação de camarão e a siderurgia, voltadas para a exportação e com seriíssimos impactos ambientais e sociais. O IBAMA, que deu o aval para a obra, forneceu, sem querer, argumentos contra o projeto. Reconhece que 70% da água será para a irrigação e 26% para o abastecimento de cidades; que a maior parte da água transposta irá para açudes onde se perde até 75% por evaporação; que 20% dos solos que se pretendia irrigar “têm limitações para uso agrícola” e “62% dos solos precisam de controle, por causa da forte tendência à erosão”.

A transposição do Velho Chico é um projeto politicamente inconseqüente, economicamente inviável, socialmente injusto e ecologicamente covarde. Bastaria qualquer uma dessas quatro condições ser verdadeira para justificar o abandono do projeto. A transposição é politicamente inconseqüente porque gera um conflito na federação brasileira e nos estados do Nordeste que será permanente, com tendência a se agravar – uma briga pelo uso da água. O rio é da “integração nacional”, mas a transposição é obra de desintegração nacional, pois, no momento em que se tira água do Rio São Francisco para levar para o Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte (os estados receptores), uma injustiça é cometida com o povo doador (alagoanos, baianos, mineiros, pernambucanos e sergipanos) que possui disponibilidade hídrica de 360 metros cúbicos por segundo (m³/s) para abastecer uma população de 13 milhões de pessoas. No Ceará, por exemplo, a disponibilidade per capita é melhor: 215 m³/s para 7,5 milhões; sendo que fenômeno semelhante acontece também com o Rio Grande do Norte.

É um erro ecológico dizer que o Rio São Francisco está desperdiçando água no mar. O ecossistema marinho depende desta água para se manter vivo. Precisa ser mantida uma vazão ecológica na foz.

A transposição é a sofisticação da indústria da seca. Os beneficiados serão as empresas da construção civil e os grandes empresários locais. A Região Nordeste tem o maior índice de açudagem do mundo – 70 mil açudes construídos em um século – e uma grande capacidade de armazenar água. Os projetos já feitos nunca tiveram cunho social. A política hidráulica do Nordeste não está atrelada a uma reforma hídrica e nem agrária para oferecer acesso a essa água. Só que a transposição é ainda mais prejudicial do que as típicas obras da indústria da seca. Ela não demanda apenas investimentos na construção – a população vai pagar um preço constante. Todos, principalmente os que não têm acesso à água da transposição, vão pagar pela água. Por trás de tudo isso está um lobby poderoso que se encontra infiltrado nos partidos políticos e na máquina do governo e que defende a manutenção da velha política de grandes obras hidráulicas no Nordeste – a verdadeira e atual indústria da seca na região.

O geógrafo Aziz Ab’Sáber, no artigo “A quem serve a transposição?”, afirma: “O risco final é que, atravessando acidentes geográficos consideráveis, como a elevação da escarpa do Araripe – com grande gasto de energia! -, a transposição acabe por significar apenas um canal tímido de água, de duvidosa validade econômica e interesse social, de grande custo, e que acabaria, sobretudo, por movimentar o mercado especulativo, da terra e da política. No fim, tudo apareceria como o movimento geral de transformar todo o espaço em mercadoria”. Enfim, a transposição não é destinada a salvar os nordestinos da seca, pois apenas uma minoria irrelevante do Semi-Árido receberá água na porta, mas se destina ao hidro e agronegócio, que utilizará uma água caríssima, levada a 700 km, que terá de ser subsidiada a vida inteira. O governo Lula, maquiavelicamente, esconde uma realidade que surpreenderia a Nação: não há falta de água no Nordeste setentrional. O que urge ser feito é democratizar o acesso à água existente. O Rio São Francisco está na UTI e a transposição ameaça provocar sua morte, gerando o maior desastre ecológico e socioeconômico da história brasileira.

4. Alternativas: Reformas Hídrica e Agrária, em Convivência com o Semi-Árido

A Transposição se torna ainda mais insensata quando se sabe que há alternativas mais simples e baratas para o abastecimento das cidades e comunidades rurais nos anos secos. Manoel Bomfim Ribeiro, um dos maiores entendidos na potencialidade do Semi-Árido, defende que o Nordeste precisa é de democratização da água, o que passa por reforma agrária e pela reforma hídrica através de três subsistemas: adutoras, cisternas e poços tubulares.

Na primeira carta ao Povo do Nordeste, em 30/09/2005, Dom Luiz Flávio Cappio dizia: “Há muito tempo os poderosos querem fazer vocês acreditarem que só a água do Rio São Francisco pode resolver os problemas que vos afligem todos os anos no período da seca. Não é verdade. Estes mesmos problemas são vividos a pouca distância do Rio São Francisco. Ter água passando próxima não é a solução, se não houver a justa distribuição da água disponível. E temos, perto e longe do Rio, muitas fontes de água: da chuva, dos rios e riachos temporários, do solo e do subsolo. O que está faltando é o aproveitamento e a administração competente e democrática dessas águas, de modo a torná-las acessíveis a todos, com prioridade para os pobres. Não lhes contam toda a verdade sobre este projeto da transposição. Ele não vai levar água a quem mais precisa, pois ela vai em direção aos açudes e barragens existentes e a maior parte, mais de 70%, é para irrigação, produção de camarão e indústria. Isso consta no projeto escrito. Além disso, vai encarecer o custo da água disponível e estabelecer a cobrança pela água além do que já pagam. Vocês não são os reais beneficiários deste projeto. Pior, vocês vão pagar pelo seu alto custo e pelo benefício dos privilegiados de sempre. Não estivesse o Rio São Francisco à beira da morte e suas águas fossem a melhor solução para a sede de vocês, eu não me oporia e lutaria com vocês por isso. Tenho certeza de que o generoso povo do São Francisco faria o mesmo”.

Não podemos perder de vista que o nosso projeto é muito maior. Queremos água para 44 milhões, não só para 12. Para nove estados, não apenas quatro. Para 1.356 municípios, não apenas 397. Tudo pela metade do preço da Transposição. O Atlas do Nordeste da Agência Nacional de Águas (ANA) e as iniciativas da Articulação do Semi-Árido (ASA) com seu projeto de construção de 1 milhão de cisternas e a implementação de 144 tipos de tecnologias alternativas, sustentáveis ecologicamente, são muito mais abrangentes e têm finalidade no abastecimento humano. A transposição é econômica, neoliberal. Um camponês do Ceará alerta: “Nenhum projeto faraônico beneficia os pequenos. O que beneficia os pequenos são as pequenas obras multiplicadas aos milhares”.

5. Um balanço do segundo jejum de Dom Cappio

Durante os 24 dias de jejum e oração de frei Luiz quantas cartas, e-mails, telefonemas e manifestações de apoio dos quatro cantos do mundo, antenados e solidários. Quantas pessoas frei Luiz ouviu, aconselhou, confessou, abraçou, beijou, dirigiu mensagens a elas, ou simplesmente olhou com carinho. Quantas pessoas participaram do “jejum solidário”, uma proposta que ganhou conotações – até certo ponto surpreendentes – de crítica a uma sociedade que tem abundância de comida, mas aumento da fome. Milhares de pessoas sentiram-se questionadas profundamente no seu estilo de vida cristã diante do valioso testemunho de frei Luiz, ainda que suas palavras e atitudes proféticas tenham sido ignoradas por autoridades que se fizeram surdas à voz do povo.

Na capela de São Francisco, na pequena cidade de Sobradinho, no sertão da Bahia, graças ao espírito divino presente nas águas do Rio, os 24 dias de jejum e oração de dom Cappio (de 27/11/2007 a 20/12/2007) revelaram o crescente compromisso de milhões de brasileiros com a preservação do São Francisco. O Rio não é mais algo fora de nós. É a nossa identidade. No princípio era a água; e a água se fez “carne”: criaturas todas do universo. Não somos apenas filhos e filhas da água. Somos água que sente, que canta, que pensa, que ama, que deseja, que cria.

O gesto de Dom Cappio desmascarou a ignorância e a omissão de muitos cidadãos. Desmascarou, sobretudo, a arrogância do Governo e o cinismo das instituições tidas como democráticas. Mostrou que os quatro poderes – midiático, executivo, legislativo e judiciário – continuam de joelhos diante do poder econômico nacional e internacional. Revelou que o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva revestiu-se de autoritarismo, de arrogância e prepotência na corrupção. Ou nas palavras de Dom Tomás Balduino: “O governo Lula esgotou-se”.

Politicamente, não se legitima a transposição do Rio São Francisco. Os movimentos populares, representantes legítimos do povo, levantaram-se na defesa das águas como bem comum. Denunciaram a mercantilização da água para o hidronegócio. O jejum de frei Luiz desnudou a verdade sobre a malfadada Transposição: uma obra faraônica. A maior da história do Brasil.

O gesto de Dom Cappio fortaleceu a Via Campesina, os movimentos populares e as lideranças sociais, os setores religiosos e a consciência cidadã para prosseguirem na luta ecológica, o que significa luta contra injustiças sociais, políticas e econômicas. Internacionalmente a repercussão gerou bons frutos. A Comissão Pastoral da Terra, Pastorais Sociais e parte dos movimentos populares que não mediram esforços na luta ao lado de Dom Cappio também saíram fortalecidos.

Frei Luiz irrompeu como uma forte liderança do Brasil atual. Será como uma “espada de Dâmocles” levantada sobre a cabeça dos quatro poderes, das instituições, dos cidadãos, cúmplices do crime e acomodados. A voz e o testemunho de frei Luiz valorizaram o amor pela causa dos pobres.

O gesto profético de Dom Cappio curou a cegueira de milhões de pessoas. Jejum e oração foram instrumentos para desnudar a mentira. Mobilizou a CNBB, a Igreja Católica, os cristãos, boa parte do clero e dos religiosos. Nas mentes e corações de milhares de pessoas despertou indignação.

A conquista das conquistas: Dom Cappio continua vivo entre nós. Mais do que nunca continuará sendo um grande profeta no meio do povo a encorajar a luta dos pequenos na denúncia de arbitrariedades e desumanidades dos quatro poderes que, travestidos de Estado de Direito, insistem em imperar sobre os pobres e sobre o ambiente natural.

O gesto profético de Dom Luiz sacudiu a Igreja, o Governo e pessoas de tantas instituições. A força cristalina do testemunho de profeta tocou feridas profundas, encobertas por discursos fáceis, palavras jogadas ao vento. Dom Cappio retomou uma modalidade de luta assentada sobre a fina flor da tradição cristã: jejum e oração. Resgatou no coração de muitos militantes uma espiritualidade nova. Jejuar e orar continua sendo expressão da resistência contra os faraós de hoje. O jejum de Dom Cappio foi também contra o perverso modelo de desenvolvimento, excludente, explorador – o mesmo de quando Cabral invadiu o Brasil -, que enriquece poucos e joga milhões na miséria, como é o caso do trabalho escravo nas carvoarias que dizimam o cerrado e põe o Velho Chico à beira da morte, pois a morte do cerrado é a morte do São Francisco e sua bacia.

A continuidade do debate fará com que caiam outras máscaras! Muitos neófitos no debate sobre a Transposição, tema que já está em pauta há pelos menos dez anos, expressam incongruências, desinformação e o velho preconceito em mal pensar, a partir do Sul/Sudeste, o que se generalizou chamar “Nordeste”. Não dá mais para ignorar a revolução silenciosa que se expressa no paradigma da Convivência com o Semi-Árido.

Com Roberto Malvezzi somamos: “O saldo do gesto de Frei Luiz Cappio demarca as margens e estabelece um abismo moral entre companheiros que até ontem bebiam da mesma água. O rio que nos separa é mais profundo que o São Francisco. O que está em jogo é o futuro deste país, do próprio planeta, da própria humanidade. Será que o caminho do governo está mesmo “livre” para prosseguir com o projeto após a vergonhosa decisão do Supremo Tribunal Federal – STF – de liberar as obras sem apreciar o mérito de 15 ações que tramitam no plenário do Supremo? Uma obra de longo prazo, que envolve bilhões de reais durante sucessivos governos, nunca está garantida antes de sua conclusão. A preocupação fundamental demonstrada pelo governo foi “não fazer concessões ao bispo”, como demonstração de “autoridade”. Muitas vezes, a expressão corrente foi que “ceder liquidaria o Estado”. Ou: “Agora é o São Francisco, depois podem querer barrar usinas no rio Madeira”. Portanto, o governo sabe que o gesto de frei Luiz aponta não só contra o governo e seu Programa de Aceleração do Crescimento – PAC -, das empresas, não do povo – mas também contra o modelo de desenvolvimento que está sendo imposto sobre a natureza, as pessoas e as comunidades mais pobres do País”.

Queiram os opositores e o governo ou não o saldo do gesto de Frei Luiz é muito positivo! Com Dom Cappio vivo e a verdade gritando mais forte – após o jejum e oração não apenas de um, mas de tantos -, temos hoje a certeza ainda maior de estarmos do lado certo desta história. Ou, como profetizou Leonardo Boff, a transposição já está amaldiçoada!

6. Lições e perspectivas (Segundo Paulo Suess)

1. As duas greves de fome de Dom Luiz mostraram que é possível intervir nos processos que pretendem naturalizar a desigualdade e industrializar a fome.
2. Frei Cappio reintroduziu duas palavras importantes na discussão, sem falar delas: ruptura e utopia. Não é por falta de solidariedade que os movimentos sociais, as pastorais e o povo do vale do São Francisco rejeitam o projeto da transferência da água, mas por causa do seu caráter elitista. A ruptura com as estruturas autoritárias e faraônicas do projeto permite desconstruir a legalidade privatizada e radicalizar a democracia.
3. Muitos movimentos sociais e religiosos perceberam o gesto de frei Luiz como tiro de largada. Podem retomar o leme da história, em vez de arrumar as cabines no porão do navio. Num momento de depressão política, o movimento de Cabrobó devolveu ao povo a esperança. A resistência é possível, a luta faz sentido.
4. O gesto de Dom Luiz Flávio revelou a universalidade de sua causa que é o pressuposto para alianças douradoras. Desencadeou um encontro em massa entre peregrinos místicos e militantes em marcha, entre indígenas e pobres que vivem ao longo do Rio, entre brasileiros do Norte ao Sul e internacionalistas de todos os países.
5. A luta desencadeada na beira do rio São Francisco não visa apenas corrigir deformações residuais do projeto de transposição do Rio, mas seu engavetamento. A luta pela transformação mobiliza. Quem pára de lutar, perde o sonho e a utopia.
6. A causa do rio São Francisco ainda não é ganha. Se fizermos ressoar a pluralidade das vozes do povo, é possível ganhá-la. Como fazer ressoar a voz do povo, a voz das vítimas, a voz dos que até hoje zelaram pelo rio São Francisco, morando na beira de um rio que lhes foi alienado? As audiências sobre o Projeto da Transposição do Rio São Francisco devem ser transformadas em instâncias de decisão. O melhor projeto não vale nada sem a participação do povo.
7. O primeiro jejum de Frei Cappio conseguiu em 11 dias o que a Campanha da Fraternidade 2004 não conseguiu em 40 dias. Dela mal lembramos o lema: “Água, fonte de vida”. O segundo jejum de Frei Luiz – 24 dias – foi mais eficaz do que todas as lutas de milhares de militantes sociais em dois anos de ações concretas contra a Transposição. Os jejuns de Dom Cappio apontam para uma nova pedagogia de revitalização não só das Campanhas da Fraternidade, mas também de certas estruturas eclesiásticas, das casas religiosas, dos escritórios dos movimentos sociais, de ONGs e inúmeras entidades da sociedade civil.

7. E agora, José?

A transposição começou, mas não irá muito longe, nem muito menos terminará, pois é um projeto inviável economicamente, ilegal e imoral, segundo as leis ambientais e segundo a Constituição de 1988, injusto eticamente, politicamente autoritário e ecologicamente insustentável. A história julgará o Presidente Lula e os apoiadores deste insano e covarde projeto, a obra mais cara da história do Brasil.

É imperioso abrir um amplo debate nacional sobre as alternativas para garantir acesso à água e ao desenvolvimento sustentável para o Semi-Árido. Temos certeza de que, sendo feito com honestidade e verdade, este debate demonstrará o quanto o projeto de transposição é nefasto e favorece apenas empreiteiras, hidronegociantes, grandes empresários, o grande capital internacionalizado, em detrimento do nosso Povo.

“Estamos no Século XXI e um gesto profético como o de Dom Luiz Cappio deveria despertar a sociedade e o seu governo para cuidar dos pobres do Semi-Árido de maneira exemplar: com sentido de justiça, amor à natureza e pleno respeito a uma outra maneira de fazer política de desenvolvimento. Se benditos são os mártires, maligna é a sociedade que por ação ou omissão produz mártires” , alerta Guilherme Delgado.

Alfredo de Abreu Paz, poeta popular da CPT, canta: “Nosso povo não quer mais / Ver nosso bispo sofrer / Dom Frei Luiz Cappio passar / Vinte quatro dias sem comer / Nem ele nem outro bispo / Que não corra mais o risco / De agonizar pra morrer. Pelo Jejum solidário / Frei Luiz fez opção / Defendendo o Velho Chico / Sua revitalização / Se alguém não entendeu / Mas este belo exemplo seu / Foi pelo bem da nação”.

Doar a vida é investir, abnegada e saudavelmente, na qualidade de relações, na libertação sistêmica, na dignidade das pessoas, na preservação da natureza. Não há doação sem abdicação. “Torna-se fator de acréscimo quem se dispõe a perder”. “Quem morre há de viver”.

O apóstolo Pedro pretendia salvar a vida de Jesus. “Ter de doar sua vida? Isto não lhe vai acontecer!”. Teve de ouvir: “Seu modo de pensar nada tem a ver com a sabedoria de Deus. Deixe-me em paz, seu covarde e mentiroso!” Seria tão fácil para Jesus uma retirada, uma fuga inteligente, preservando sua vida. “Mas quem não perde, como há de ganhar?”.

Feliz o povo, feliz a instituição que produz pessoas tão dignas a ponto de se disporem a doar a própria vida para que a vida de tantos seja salva. Maldito o povo e maldita a instituição que repudia um filho seu que, de tanto amor, abdica de si para que vida de qualidade se torne herança de todos. Bendito o povo, bendita a instituição que alimenta em seus filhos a capacidade de, esquecendo-se de si, priorizar a vida de seus irmãos. Repudiável o povo e execrável a instituição que avaliam a doação de um filho seu como um gesto idolátrico.

Dom Cappio, suspendendo o jejum, “ressuscitou”. Ele agora segue serenamente a defesa intransigente da Revitalização do Velho Chico. Está mais do que nunca fortalecido em seus princípios éticos. Recebeu das pessoas mais respeitáveis do nosso país e no exterior – artistas, intelectuais, ribeirinhos, lideranças sociais -, o apoio para acordar as consciências adormecidas pelo calmante social distribuído pela mídia. O seu gesto alertou os desatentos, separou muito joio do trigo. Descoloriu ainda mais os discursos mentirosos que falseiam as verdades.

Feliz o povo que ouve a voz de seus profetas e os segue. Eis no nosso meio um verdadeiro filho de Francisco de Assis, um grande profeta. O nome dele é DOM FREI LUIZ FLÁVIO CAPPIO. A glória de Deus brilha nele e na grande luta em defesa de uma autêntica revitalização de toda a bacia são-franciscana e em prol de um autêntico projeto de Convivência com o Semi-Árido. Isso implica asfixiar o projeto da Transposição, antes que seja tarde demais. “Águas para a vida e não para a morte”, gritamos todos, ao lado dos militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens.

Salvar o Rio São Francisco, seu povo, o povo de Semi-Árido e toda a biodiversidade são-franciscana e da caatinga é um sonho bom. Sabemos que “sonho que se sonha só pode ser pura ilusão, mas sonho que se sonha junto é sinal de solução. Então vamos sonhar, companheiros e companheiras!”

As reflexões oriundas do testemunho de Dom Cappio fizeram e ainda farão borbulhar o Espírito para suscitar e dinamizar muitas outras lições como testemunho de autêntica cidadania. Eis um testemunho espiritual e profético na luta pela Sustentabilidade da Vida! A luta continua! Mãos à obra!

(Este artigo foi publicado no livro 21o Congresso Anual da Sociedade de Teologia e Religião – SOTER, Ed. Digital – ebook, Paulinas, São Paulo, 2008, pp. 228-241.)

Frei Gilvander Moreira é Frei Carmelita, mestre em Exegese Bíblica, professor de Teologia Bíblica, assessor da CPT, CEBs, SAB, CEBI e Via Campesina, colaborador e articulista do EcoDebate. http://www.gilvander.org

[10/09/2008] [ O conteúdo produzido e assinado pelo EcoDebate é "Copyleft", podendo ser copiado e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor e ao Ecodebate, como fonte original da informação.]

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