"Os bons ideais aproximam as pessoas que olham o mundo não apenas para si, mas para todos"Rivaldo R. Ribeiro

30 de janeiro de 2017

Senciência nos animais? artigo de Fernanda Tripode

Inicialmente importante sabermos o que significa “senciência”. Consiste em “a capacidade que um ser possui para sentir dor, medo, angústia, prazer e alegria”, sendo uma palavra que ainda não consta no dicionário formal da língua portuguesa, somente a palavra “senciente”, definido como aquele “que sente”.

Ciência e a “Senciência nos animais”
A definição de “senciência” nos animais encontra grande “ceticismo” em alguns segmentos do âmbito científico.

Para a grande maioria dos cientistas, que particularmente rotulo de “céticos”, (com o devido respeito à outros entendimentos), considerar a vida emocional nos animais, exige considerável e incontestável prova científica.

Não houve prova o contrário, ou seja, declaração da “ não existência da senciência em animais”, mas, esse fato não é levado em consideração. Segundo um dos estudiosos da consciência animal, Donald Griffin, a grande maioria entre a comunidade científica exige maiores evidências para aceitar os sentimentos nos animais, fato que não ocorre em outras áreas da ciência.

A razão desta exigência dá-se pelas experiências subjetivas serem assuntos privados, ou seja, que residam no cérebro de cada um, sendo inacessíveis aos outros. Esta conclusão torna o assunto restrito e conveniente aos “céticos cientistas”, ao afirmarem que jamais terão certeza dos sentimentos dos animais e, por este motivo, encerrarem a questão. Neste aspecto, interessante notar que numa análise dos estudos científicos, verificaremos que raramente temos um conhecimento por completo das questões envolvidas em qualquer assunto, sendo usado a predição em cada caso específico. A ciência pode fazer a predição com base na observação.

Aliás, perfeição no conhecimento é algo que pouquíssimos cientistas puderam oferecer. Na verdade, ao seguirmos essa linha de análise, devemos reconhecer que a senciência de outro ser humano também não pode ser provada cientificamente. O acesso à mente e aos sentimentos de outros indivíduos é limitado porque não podemos adentrar na esfera privada de um outro indivíduo, humano ou não humano, consequentemente “sentir o que esse ser sente”.

Mas, evidentemente, que essa limitação não nos impede de compreender ou pelo menos “tentar compreender”, o que um outro ser humano está sentindo, nem nos impede de utilizar essa informação para tomarmos decisões com respeito e ética ao agirmos.

A ciência tradicional cartesiana precisa evoluir da postura simplista de “não temos certeza, então não existe”.

Por outro lado, vários cientistas vêm compreendendo e dando ênfase sobre a questão da senciência animal. Estamos numa mudança, a transição para uma ciência mais repleta de valores e ciente de suas limitações já se iniciou, pelo menos no que diz respeito à ciência animal. As recentes descobertas têm alardeado debates à respeito da consciência animal que já vinha sendo discutido entre filósofos, psicólogos e outros cientistas. E caso seja reconhecido que os animais podem pensar, então a idéia de que a consciência é um atributo único dos humanos, um dos postulados básicos do ocidente desde o filósofo francês Renè Descartes – onde argumentava que animais não têm almas, logo não pensam e não sentem dor, sendo que os maus tratos não eram errados – torna-se insustentável.

Senciência nos seres humanos e não humanos/animais
Nós seres humanos, somos sencientes, sentimos raiva, medo, felicidade, prazer, dor, dentre outros sentimentos. Possuímos sistema nervoso central, onde nossa mente capta informações que nos fazem reagir à todos os sentimentos mencionados. O mesmo ocorre com um ser não humano / animal, que possui o sistema nervoso central, tornando consciente de sua percepção sensorial, reagindo à todos os sentimentos provocados externamente.

A mente humana e não humana, interagem em seus mundos de acordo com suas naturezas. A mente do ser humano usa da linguagem simbólica para interagir com o seu mundo, podendo ser diferente da mente de outras espécies, onde podem usar de forma diversa para interagir com seus próprios mundos e de acordo com suas comunidades de cada espécies. Torna-se impossível saber com precisão a forma usada, porém, é irrelevante, pois tanto os humanos quanto outras espécies não humanas/animais, são sencientes e capazes da consciência de sua percepção sensorial. Possuem interesses, inerentes à sua própria natureza, todos têm preferências, desejos ou vontades.

O pensamento humano e não humano/animal apresentam diferenças no modo de pensar sobre seus interesses, mas, não há dúvidas que têm iguais interesses básicos, sendo alguns deles: não “sentir” dor e de sofrer, o interesse de permanecerem vivos e junto de sua respectiva comunidade. São interesses inerentes às suas naturezas, ligados à própria senciência de seres humanos e não humanos/animais.

Mas… e as plantas ? Elas também sentem e sofrem!!!…

Como poderá ocorrer, algum leitor após essas breves análises sobre a senciência nos animais, consequentemente indagar: mas, e as plantas? E o Reino vegetal ?

Na verdade noto que raramente essa indagação é com o propósito de uma discussão e esclarecimento sobre a senciência nas plantas, mas sim, pelo fato de tentar abranger a senciência nas plantas (como se fosse possível) e concluir: se plantas e animais sentem, é correto que continue com a prática de sofrimento aos animais, ou seja, “ se não posso impedir que a planta sofra, portanto, não posso impedir que ninguém sofra, assim, estou com a consciência tranquila do meu entendimento de infligir sofrimento animal.”

Entendo que é mais uma desculpa e um álibe para continuar no ato reiterado de contribuir sofrimento animal: já que não posso impedir o sofrimento numa alface, então vou continuar matando porcos, galinhas, bois, peixes, cordeiros…

Por mais que essas diferenças sejam dotadas de lógica e bom senso, torna-se viável esclarecer alguns dos muitos aspectos que diferenciam seres humanos/não humanos-animais (reino animal) das plantas (reino vegetal):

Primeiramente, quando retiramos frutos, folhas, sementes dos vegetais, esses não morrem. Quando podamos uma planta, ela não morre. Obviamente que, caso retiremos a planta pela raíz ela morrerá, porém, não são capazes de sentir “dor”.

Plantas não são dotadas de sistema nervoso central, logo não possuem a senciência. Para serem capazes de sentir dor e sofrer, necessitariam possuir a senciência.

Plantas respondem à estímulos, diferentemente de possuir senciência, pois, inclusive organismos não-vivos como células e proteínas respondem à estímulos. (Quem nunca viu isso no microscópio naquelas aulas de laboratório do colégio ?)

Caso as plantas tenham algum tipo de sensibilidade, situação hipotética, ela seria muito diferente da senciência dos animais, inclusive essa questão é abordada nos estudos que tratam da sensibilidade das plantas. Podem ter mecanismos de defesa, atração, estratégias de dispersão de sementes ou mesmo captura de presas, porém, não experimentam dor ou sentimentos como os seres não humanos/animais e os humanos.

Mesmo com essas poucas, entre as muitas diferenças existentes, sempre terá alguém afirmando que as plantas não diferem dos animais, em relação aos sentimentos, porém, o único propósito com a afirmativa é confrontar e não dialogar, já que com o mínimo de bom senso, sem necessitar de inteligência, conseguimos compreender claramente a diferença entre os animais e as plantas. Afinal não é difícil compreender diferenças entre aparar uma grama / cortar um tomate e cortar o pescoço de um cão, galinha, ou de qualquer outro animal !


A subjetividade na senciência – Aplicação da ética e respeito


Para esclarecer melhor sobre a senciência e sua subjetividade tanto no ser humano, quanto nos animais, traço alguns exemplos:

Um ser humano ainda incapaz- bebê humano. Sabemos que é um ser senciente, assim, se fizermos algo à esse ser, mutilá-lo ou maltratá-lo de alguma forma, sabemos que “sente”, não pelo “choro” ou por se “debater”. Mas, compreenderemos que possa sentir a dor e o sofrimento, em razão de que possuimos a consciência para compreender que “bebês humanos” são seres sencientes e que por questão de respeito e ética, não devemos maltratar um ser possuidor de senciência. O ponto crucial de impedir o ato cruel à um bebê é o caráter moral desenvolvido no cérebro do ser humano, através da cultura na sociedade em que vive, praticando a ética e o respeito, cumprindo Leis que nasceram dessa cultura. Assim, estará ciente de que caso ultrapasse a linha do caráter moral, a ética e o respeito, valores basilares de uma sociedade, terá a devida punição. Desta forma, o ser humano não maltrata um bebê, por compreender o sofrimento diante o seu caráter moral desenvolvido, através de sua cultura, consequentemente agindo com ética e respeito e não “por sentir o que esse bebê humano sente”.

Caso o ser humano, totalmente capaz, também seja vitimado pela dor, ao cortá-lo, não saberei o que sente pelo fato de simplesmente afirmar que “sofre” e “que dói” , pois, é subjetivo, ele diz que “sente a dor”, mas, “eu não sinto”. Não posso adentrar a sua mente, mas, posso usar da predição, aplicar a ética e respeito, impedindo que esse ser sinta dor e sofra. Assim, temos que a senciência é subjetiva, pois, não podemos dizer sobre o outro ser, somente sobre o nosso sentimento.

Caso algo me faça sentir “dor” e “sofrimento”, poderei medir o grau do sofrimento, se fizerem à um bezerro ou à um bebê humano, cortando-os, nestes casos, não poderei medir o grau de sentimento experimentados por eles, somente com relação ao meu próprio sentimento, com relação especificamente aos exemplos – bezerro e bebê humano, saberei que ambos estarão sofrendo, por serem seres sencientes, e ter na minha concepção de moral desenvolvida , e, aplicação da ética e respeito, que devo impedir os dois atos de sofrimento.

Diga-se que essa concepção moral desenvolvida, a maiorira dos seres humanos aplicam somente a sua própria espécie. A senciência de outros seres são deixadas de lado, não aplicando a ética e respeito, pois, o ser humano desenvolve a capacidade mental de compreender que os animais são de uso e exploração, e esse caráter moral desenvolvido passa por gerações.

E nesse aspecto que nasce um grupo formado por minorias de pessoas das mais diversas culturas, nacionalidades, crenças, religiões, onde compreendem claramente a senciência nos animais; possuem a concepção moral de não infligir dor e sofrimento também aos animais, estendendo a ética e o respeito para com seres de outras espécies, são os denominados “veganos”. (meu entendimento sobre “veganos”, uns entendem que veganos são aqueles que independente de moralidade, somente aplicam-se a ética e o respeito, particularmente entendo que o vegano desenvolve o caráter moral também com os animais).

Recentes pesquisas sobre a questão da senciência animal

Conforme recentes pesquisas científicas, os animais são considerados “seres sencientes”, ou seja, eles possuem a capacidade emocional para sentir dor, medo, prazer, alegria e estresse, além de terem memória e, até mesmo, saudades. Foi diante este princípio da senciência nos animais que a WSPA (World Society for the Protection of Animals), realizou um documentário através do filme “Animais, Seres Sencientes”, demonstrando que o conceito de senciência animal, se aplica a todos os animais vertebrados – mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes. Possuindo a capacidade da percepção de sentimentos como agonia, medo, dor, dentre outros.

O documentário teve a participação dos maiores especialistas em bem-estar animal do Brasil e do mundo. Eles comentaram, de maneira clara e didática, sobre os animais usados para consumo, entretenimento, produção de ovos e leites, selvagens, dentre outros tipos de explorações.

A omissão
Muitos, apesar de reconhecerem a existência da senciência nos animais e o quanto é errado o que ocorre à eles, preferem a omissão: “Não quero ver. Não gosto de ver isso. Nem me fale sobre isso. Não quero informação. Não quero saber, pois, vou sofrer. Eu não suporto crueldade com animais. Prefiro não saber, pois, gosto de churrasco”, “Já foi morto mesmo, então eu como”, dentre outros.

Mas, mesmo diante de todos os argumentos, as comprovações da senciência e de sofrimento que animais passam dia e noite, continua-se no ato de contribuir para a exploração, uso e assassinato animal, puramente pela omissão. É mais fácil e cômodo. Está mais do que na hora de raciocinarmos sobre nossos atos com os seres não humanos/ animais, dotados de senciência e tomarmos uma atitude deixando a omissão e comodismo de lado.

Como sempre lemos e ouvimos: O silêncio generalizado sempre favorece ao opressor nunca a vítima.


Conclusão
Portanto, a senciência existe tanto em seres humanos, quanto em não humanos/animais, sendo que, cada um possui direitos e interesses inerentes de sua própria natureza, dentre eles: não sofrerem, não sentirem dor, medo e angústia; não morrerem, não serem explorados e maltratados; devendo estender a ética e o respeito, à todos esses seres possuidores de senciência, independentemente de espécie.

“O passado fugiu, o que esperas está ausente, mas o presente é teu”.(Provérbio árabe)
* Fernanda Tripode – Advogada e vegana
** Colaboração de Izamarina Martins para o EcoDebate, 15/03/2011


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